quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Ébano


Havia chegado longe, tão longe que já não havia como voltar. Contudo, voltar nunca fora uma opção. A vida lhe chamava como a natureza chama pelo ser domesticado, distribuindo em seus sentidos um pouco do que poderia ser inédito, mas curiosamente maternal. O desejo de liberdade, era evidente, de modo que materializado, cortava as raízes que fixavam o menino ao seu solo natal. A sua imagem, antes geometricamente previsível, era agora um borrão, transmutado diariamente pela abstinência de possibilidades.
No baú do medo, escancarado sobre os pés descalços, brilha uma chama invencível, que intensifica-se a cada engano, iluminando o caminho deste novo peregrino das verdades.

domingo, 25 de setembro de 2011

O ofício do ofício


O ofício do ofício
é dilatar o tempo
contrair o espaço
negar o intenso
impor a exaustão
contra o inesperado
buscar a constância
produtiva não mental
colher o fruto
que brota podre
transgênico
psicodélico
digerido em ilusão
descarregado
sem cerimônia
na fossa
do vizinho
e o pior
sem lavar
as mãos

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Tamborisse


Humildade evapora, se esvai perde o cheiro feito perfume velho de momentos faceiros até que só sobre o delírio etílico, passível do conjunto que vira unidade sensível, a solidããão. Tom tom tom. E mesmo que adepto do impulsivo renego o abrigo, dado pelo amigo que diante do penhasco conecta os olhos com o horizonte e não o buraco onde eu queimo, na escuridããão. Tom tom tom. Mesmo se fosse por um segundo, um minuto, um milímetro, anseio, que o mundo que vivo, respiro o espirro alheio, baixasse a crina, confiante como ave de rapina, e defrontasse o medo, a compreesãããão.

E eu bato o tambor esperando.

Tom tom tom.

domingo, 4 de setembro de 2011

Rumo




Que a pura e simples passagem
Fique cega de desfechos
E que todo passo seja o começo
De uma bela e imprevisível viagem

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Solidez


Puro de idéias, levito em minhas ideologias. Na fuga do hedonismo, de tudo que inebria a existência, eu perco prumo. A escuridão me consome, como ferrugem em um parafuso esquecido, um objeto desprovido de sua função. Esquecimento, destino perpétuo para aqueles que negam concepções, daqueles que desconhecem a negação, a conclusão. Compreenda, compreenda, compreenda. O mantra que caminha livre em meus pensamentos, é como o vento. Invisível, imprevisível e intangível, ele se mostra onipresente, sacudindo tudo que me fixa ao chão, a vida. Na defensiva não me deparo com nenhum ataque. Talvez esteja na hora de mudar para ofensiva, ofender, contrariar o verbo, verbalizar o impulsivo. O moinho se ergue rotativo, enquanto a lança que empunho perde o fio. Com um tapa silêncioso no dorso do corcel inicio o galope, rumo ao sangue, rumo a sólida compreensão.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Oscar


Oscar riu com nunca havia rido antes. O rosto pálido se contorcia em espasmos de prazer retido. Nos seus olhos uma inércia opaca cintilava com as lágrimas de ironia. Não sabia por que, porém sentia que era incontrolável, e isso lhe agradava ainda mais. Algo naquele jovem havia despertado da escuridão da alma humana e se deliciava com a liberdade concedida. Mas o que havia causado tamanha possessão? Quem era o demónio que o habitava silenciosamente? Não importava mais, aquele corpo já não era mais feito de vida, mas sim de ódio. O futuro lhe reservara novos planos.
Oscar fechou a gaveta e começou a subir os degraus em direção ao quarto dos pais. A luz do luar que adentrava pela janela da sala refletia no rosto do menino, mostrando um largo sorriso. O sorriso da morte.

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